01 de dezembro de 2025

O Golpe Perfeito Já Existe e Ele Mostra Como Você Pode Cair Sem Perceber

No dia 13 de novembro de 2025, foi ao ar no YouTube o terceiro episódio do podcast Papo de Risco, agora disponível em YouTube. O encontro reuniu o professor Rafael Rabelo, o co-host professor Edvan Gomes da Silva e o convidado especial Laerte Peotta, engenheiro eletricista, doutor pela UnB, funcionário de carreira do Banco do Brasil, professor universitário e um dos nomes mais influentes do país em cybersegurança e gestão de fraudes. A conversa, conduzida ao vivo, celebrou a volta de Laerte ao ambiente acadêmico e mergulhou profundamente nas mudanças tecnológicas, na evolução dos crimes digitais e no papel da segurança da informação no Brasil contemporâneo.

O episódio começou de forma descontraída, com o tradicional debate sobre a grafia correta de cyber ou ciber e, logo em seguida, evoluiu para a trajetória profissional de Laerte, que trabalhou na transição tecnológica do Banco do Brasil desde os anos 1990. Ele relembrou a época em que os acessos ainda eram analógicos, destacou sua paixão antiga por segurança, inspirada pelo filme WarGames ainda na adolescência, e explicou como vivenciou a transformação do crime físico para o crime digital, chegando ao cenário atual, marcado por fraudes eletrônicas, golpes sofisticados e manipulação social de alto nível.

Durante a entrevista, Laerte descreveu a mudança radical do ambiente bancário: antes, as ameaças estavam nos assaltos a agências e explosões de terminais; hoje, a criminalidade se deslocou para dentro do celular do usuário. Os ataques se sofisticaram com o uso intensivo de automação, inteligência artificial, infostealers e engenharia social, muitas vezes operando a partir de bases vazadas que já incluem CPFs, endereços, nomes de familiares e dados sensíveis das vítimas. Ele ressaltou que a maior parte dos golpes atuais depende do comportamento do usuário, destacando o avanço de técnicas como ligações automatizadas, falsos advogados, clonagem de voz com IA e fraudes construídas sobre rotinas diárias mapeadas pelos criminosos.

Um dos pontos altos da conversa foi a retomada de um marco da inovação brasileira: o BB Code, protocolo criptográfico criado por Laerte durante seu doutorado, aplicado no aplicativo do Banco do Brasil ainda em 2012. Ele explicou que o objetivo era simples e ousado: autorizar transações bancárias com segurança mesmo quando o computador do usuário estivesse comprometido. Para isso, usou QR Codes quando quase ninguém sabia o que eram, implementou criptografia robusta e criou um canal separado e confiável para autenticação. O Brasil, segundo ele, foi pioneiro no uso massivo de QR Codes em pagamentos, muito antes de sistemas internacionais populares adotarem a mesma abordagem.

Na parte mais técnica, o episódio abordou a diferença entre fraude e golpe, a importância do monitoramento comportamental, a necessidade de integrar áreas de segurança e fraude dentro das organizações e a urgência de compreender o processo legítimo antes de identificar desvios. O professor Edivan e Rafael reforçaram que muitos órgãos públicos e privados ainda não monitoram adequadamente jornadas de usuários, o que abre espaço para violações internas, mau uso de credenciais, automação criminosa e exploração de falhas.

Laerte também trouxe reflexões contundentes sobre o mercado de segurança. Criticou a tendência de valorização excessiva do ataque, o “culto” ao Red Team, em detrimento da defesa, alertando que o verdadeiro objetivo de um especialista não é atacar, e sim fortalecer controles e proteger sistemas. Comentou ainda que a indústria de certificações concentra esforços em insegurança, deixando em segundo plano temas essenciais como hardening, segurança de nuvem, engenharia de processos e defesas estruturais. Em suas palavras, “estamos formando mais atacantes do que defensores”, provocação que marcou o tom de suas polêmicas finais.

Ao longo do episódio, o convidado ainda discutiu o papel crescente do crime como serviço (o crime-as-a-service), a venda de pacotes de dados, os ataques híbridos que misturam automação e persuasão humana, o uso de IA para simular vozes de conhecidos e a escalada das perdas financeiras — apenas o setor bancário brasileiro ultrapassou R$ 10 bilhões em 2024. Também destacou iniciativas positivas, como o fortalecimento da investigação digital pela Polícia Federal e projetos inteligentes de rastreamento de movimentações ilegais.

Ao final, Laerte deixou conselhos práticos ao público: desligar imediatamente ligações suspeitas, evitar interação com supostas URAs, desconfiar de QR Codes colados em superfícies públicas, duvidar de descontos “bons demais”, tratar o celular como extensão da vida financeira e considerar que qualquer dado pessoal provavelmente já foi vazado. E reforçou que, no futuro próximo, os golpes por voz alimentados por IA serão comuns e perigosamente verossímeis.

A proposta do Papo de Risco é aproximar especialistas, academia e sociedade, promovendo reflexões sobre riscos modernos, segurança digital e os desafios que permeiam o mundo conectado. Ao trazer um profissional com décadas de experiência prática e trajetória acadêmica sólida, o episódio cumpre seu papel de traduzir conceitos técnicos para o público geral, desmistificar termos e apresentar o panorama real das ameaças digitais no Brasil.

O episódio com Laerte Peotta é uma aula necessária sobre crime digital, fraude, engenharia social e evolução tecnológica. Em mais de duas horas de diálogo direto, sem filtros e com exemplos do cotidiano, o Papo de Risco conseguiu não apenas informar, mas alertar: o ambiente digital não é, e nunca foi, totalmente seguro, e entender seus riscos é o primeiro passo para se proteger. Em um cenário onde dados pessoais, identidades e finanças circulam com facilidade inédita, a conversa reforça a urgência de educação, prevenção e maturidade em segurança da informação para todos os cidadãos.

O episódio completo do Laerte está disponível em YouTube.

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